1.7.08

Barragem do Sabor - menos de 0,6% da produção de electricidade

Nem um riozinho escapa.... o último rio selvagem de Portugal, o Sabor, vai ser sujeito à intervenção do betão (barragem) e humanização radical da paisagem.
Em nome de 0,6% de produção de electricidade perde-se um valor natural inestimável. Sim, ainda há quem atribua valor à beleza, à poesia e a tudo o que não é mensurável em euros.
E paga-se caro por isso (ver artigo). <>
A barragem do Sabor servirá acima de tudo para manter o nosso modelo actual de desperdício e comodismo energético....só os stand by (TVs, DVDs, Impressoras, Monitores....etc) consomem mais energia eléctrica do que a barragem do Sabor irá produzir ! Para além dos ares condicionados de porta aberta, frigoríficos e arcas congeladores dos supermercados (sem barreiras), sistemas de iluminação arcaicos ....etc, enfim uma lista interminável de desperdícios e irracionalidades.

As palavras sustentabilidade, biodiversidade , solidariedade intergeracional ....são pouco credíveis, 16 anos após a Conferência do Rio.

2 comentários:

  1. Caro João,

    Recebi o teu e-mail e escrevi acerca do assunto as reflexões que ele me sugeriu.

    Se permites, transcrevo o que coloquei nas minhas palavras cruzadas.

    O SABOR DO RIO


    Sócrates considera "ultrapassada" discussão sobre barragem do Baixo Sabor
    Para o primeiro-ministro, José Sócrates, a discussão em torno dos problemas ambientais da Barragem do Baixo Sabor está "ultrapassada", apesar das novas acções de protesto dos ambientalistas, levadas a cabo no dia da formalização da adjudicação da construção do empreendimento. "Todas as palavras estão ditas, resta construir" esta e outras barragens constantes do Plano Nacional, referiu José Sócrates em Picote, no concelho transmontano de Miranda do Douro.
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    Caro Joao V.,
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    Recebi a tua convocatória e reflecti sobre o assunto. Que, aliás, nada tem de novo: o confronto entre as necessidades, reais ou induzidas, crescentes de energia e as consequências que esse aumento até agora imparável provoca no ambiente.
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    A convocatória teve os seus méritos ainda que o governo tenha decidido, e bem, do meu ponto de vista, avançar com a construçãao da barragem.
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    Quanto ao mérito da convocatória: Todas as iniciativas que levem ao cidadão comum informação acerca do custo das diversas opções têm o mérito de, a pouco e pouco, o iniciarem na observação das conflitualidades dos interesses em jogo. As pessoas, todas as pessoas, reagem a incentivos e estes são-lhes disponibilizados pelas perspectivas em que elas se situam ou são levadas a situarem-se. A racionalidade das suas decisões ou opções decorre da perspectiva e dos incentivos. Só mudando a perspectiva se mudam os incentivos. Um dia, as pessoas estarão mais alertadas que hoje para os custos do consumismo desenfreado, que denuncias, e para a delapidação do património histórico e natural que aqueles excessos frequentemente determinam.
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    Mas o governo fez bem em decidir-se pela autorização de construção da barragem porque é impensavel alterar hábitos e processos de modo suficiente para dispensar a continuação dos investimentos na produção de energias renováveis. Portugal é tão dependente e a ameaça da escassez de combustíveis fósseis tão flagrante que seria pouco razoável dispensar a construção desta e de outras barragens. Ainda que sejam significativos os custos ambientais e naturo-patrimoniais da decisão.
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    Vale a pena ainda perguntar, a propósito desta barragem no Sabor: Que ganhámos nós com o embargo à continuação da construção da barragem no Coa, onde (números à data do impedimento) já tinham sido investidos 250 milhões de euros? Há dias, Eduardo Lourenço, de visita à sua aldeia natal, passou pelo Coa e quis ver as gravuras. Não pôde. Tinha de ter pedido antecipadamente uma visita guiada. É crivel que, se as gravuras têm o interesse cultural que foi, na altura, reclamado, estejam praticamente ignoradas desde então ?

    Abraço

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  2. O grande desiderato em termos energéticos deveria consistir em fazer de todos nós micro-produtores. Democratizar, descentralizar, rentabilizar a produção de energia. Dadas as excelentes condições de radiação (luminosidade) do nosso país, eu, o Rui, o José , o Manuel, já deveríamos ter painéis fotovoltacicos nos telhados das nossas casas. Na Alemanha, país com pouco sol, desde 1998 já foram instalados quase um milhão de telhados solares...
    O que nos distingue, a nós ambientalistas convictos e racionais, é a vontade de mudar, progredir, sair das zonas de conforto em que vivemos até agora e racionalizar comportamentos , combater desperdícios de sempre. A iluminação da minha rua é ineficiente, desnecessária a determinadas horas...mas como a energia é muito barata, ninguém se importa. Poluir é baratíssimo...compensa.
    Eu estou disposto a abdicar de certos luxos (carro novo, TV de alta definição, férias no Brasil, refeições extravagantes...) para que a beleza no Sabor permaneça. mesmo que não vá lá, aquela beleza existe mesmo sem nós. E já chega de vermos tudo sob um prisma de fundamentalismo antropocêntrico (a leitura de Peter Singer é refrescante neste âmbito) , em que as coisas (a Natureza= só tem valor na medida em que nos são úteis.

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